00:00E olha, os casos de feminicídio no Brasil tiveram um aumento significativo.
00:0413,1% das vítimas tinham medida protetiva quando foram mortas.
00:10Vamos conversar agora sobre esse assunto com a Camila Barcelos,
00:13que é advogada criminal e professora do Centro Universitário de Brasília.
00:17Professora, seja bem-vinda. Aqui é o Fast News. Uma boa tarde para a senhora.
00:22Muito obrigada. Eu agradeço o convite. Boa tarde.
00:25Bom, professora, a gente escutou agora na reportagem da Júlia Firmino
00:28que muitos, pelo menos, das vítimas e da própria sociedade civil em si
00:34acreditam que a questão do feminicídio, do estupro,
00:37precisa, sim, ser tratado como uma questão de saúde pública.
00:41Como é que a senhora analisa o atual cenário e, é claro, a urgência
00:45em cada vez investir mais em políticas públicas
00:48para que esses índices de violência contra as mulheres caem no Brasil?
00:53Recentemente, o Fórum de Segurança Pública
00:56divulgou para a gente o resultado que, no último ano,
01:00a gente teve a maior quantidade de feminicídios da última década.
01:04Cerca de 1.500 mulheres foram assassinadas
01:07pela sua própria condição de gênero.
01:10E isso, ao ponto que a gente vê a respeito desse grande número,
01:15a gente tem que refletir também se, de fato,
01:18esse grande número é pela grande quantidade de cometimento desses crimes
01:23ou porque agora a gente consegue ter registros mais efetivos
01:27e identificação desse crime.
01:29E um ponto importante que você acabou de tratar
01:32é a respeito de 13%,
01:35cerca de aproximadamente 13% das mulheres assassinadas,
01:39elas já tinham medida protetiva ativa.
01:42O que nos faz questionar
01:43até que ponto essa medida protetiva está sendo eficaz ou não?
01:47Porque ela também não adianta ser um mero papel,
01:50um mero documento para a mulher.
01:52Eu preciso também de meios que tragam eficácia.
01:55Então, eu preciso de fiscalização,
01:57eu preciso de monitoramento,
01:59eu preciso realmente que o Estado aja de forma rápida
02:03para quebrar esse ciclo de violência.
02:05Por quê?
02:06O feminicídio, ele não é o primeiro capítulo de uma violência.
02:10Normalmente, ele começa com uma violência psicológica
02:13e vai gradativamente crescendo.
02:15O que o Estado precisa é de uma forma eficaz
02:18de evitar que chegue ao feminicídio.
02:21Por isso que é importante tratar como
02:23caso de saúde pública mesmo.
02:26Eu preciso trazer maior prevenção,
02:28maior instrução à mulher,
02:30que ela se sinta acolhida,
02:32que foi o que acabou de falar na reportagem
02:34a respeito do estupro.
02:35Ela tem que se sentir acolhida
02:37para ela realmente fazer a sua denúncia,
02:40sentir que o Estado vai estar do seu lado,
02:43que esse sistema de justiça vai funcionar para ela
02:46e que ela não vai estar abandonada.
02:48Não adianta eu só avançar na lei,
02:50o que é ótimo avançar, obviamente,
02:52mas eu preciso de meios, instrumentos eficazes
02:55para que essa lei seja realmente colocada em prática
02:58e para que a mulher se sinta, sim,
03:01protegida pelo Estado.
03:02Ela não acha que não vai valer a pena denunciar
03:06porque esse fator de 13% das mulheres vítimas
03:09de feminicídio que tinha medida protetiva ativa
03:12chama muito a atenção.
03:13Mas também chama a atenção
03:15essa grande parcela de mulheres
03:17que sequer chegaram aí ao sistema de justiça.
03:20Ou seja, esse instrumento ainda não chega a elas.
03:23Se não chega a elas,
03:25cada vez mais dificulta a proteção à mulher,
03:28dificulta que eu impeça que esse ofensor chegue até ela.
03:33Então, é caso, sim, saúde pública.
03:35É um olhar que não é só da mulher,
03:37tem que ser toda a sociedade também
03:39para trazer a sua devida proteção.
03:42Professor, inclusive, é outro assunto.
03:44Você tocou num ponto, né?
03:45Que há diversos tipos de violência.
03:47Aqui a gente pode elencar vários.
03:48A violência psicológica, violência moral, patrimonial também.
03:53Tem muito isso que vai se escalando
03:55e vai crescendo até, de certa forma,
03:56chegamos, até enxergamos a violência física
03:59e, consequentemente, é um feminicídio.
04:01De que forma, podemos dizer assim,
04:03é preciso tratar, cuidar,
04:05prestar mais atenção nos sintomas
04:07para depois não chegar até mesmo a ferida
04:09ou até mesmo a morte de uma mulher.
04:12Esse realmente é o primeiro passo.
04:14Por isso que a questão relacionada à proteção à mulher,
04:19ela também é muito feita na prevenção.
04:21Porque a própria mulher tem que reconhecer
04:24que ela sofre essa violência.
04:26Porque é só assim que ela vai dar os primeiros passos.
04:29Quando ela reconhecer que o direito dela está sendo violado,
04:33que ela deve ser respeitada
04:35e que a gente tem mecanismos para isso,
04:37para protegê-la.
04:38Então, o primeiro passo é realmente a prevenção,
04:41é a instrução da mulher.
04:43E fato é que todos esses tipos de violência
04:46demonstram a dificuldade realmente da mulher
04:49ir atrás dos seus direitos.
04:51Porque muitas das vezes eu tenho uma violência patrimonial,
04:54a mulher depende financeiramente desse ofensor,
04:57o que dificulta, sim,
04:59que ela saia desse ciclo de violência.
05:01Por isso que a gente tem que ter redes de apoio também estatais,
05:05como casas de abrigo,
05:06para receber as mulheres que precisam se afastar
05:09daquele lar, daquela casa.
05:11Ela precisa de oportunidade de ter emprego
05:14para conseguir quebrar esse ciclo.
05:17Porque, como a gente disse aqui,
05:19esse ciclo de violência
05:20dificilmente já começa no último capítulo,
05:22que é o feminicídio.
05:24A gente começa na violência psicológica,
05:26patrimonial, moral,
05:28até que vai escalando.
05:30É uma violência que a gente fala que escala.
05:32Porque ela vai crescendo aos poucos.
05:34E a mulher precisa tanto de instrução
05:36e se sentir acolhida
05:37e saber que,
05:38utilizando o nosso sistema de justiça,
05:41a lei vai ter eficácia para ela.
05:43Que ela não precisa ter medo.
05:45Que ela pode, sim,
05:47contar com esse apoio estatal.
05:49Professora,
05:50nossa comentarista, Cintia Nunes,
05:52tem uma pergunta para a senhora.
05:54Olá.
05:55Boa tarde, doutora Camila.
05:58O que eu vim dos seus comentários,
05:59com os quais eu concordo absolutamente,
06:02existe muito essa vulnerabilidade econômica
06:04de grande parte das mulheres
06:06vítimas de feminicídio
06:08ou de outras violências.
06:09Mas uma coisa que me incomoda,
06:10eu gostaria de saber
06:11se a doutora concorda comigo,
06:14será que a mais especialista está aí na área.
06:16A gente está falando o tempo todo
06:17da mulher que precisa fazer isso,
06:18da mulher que precisa fazer aquilo,
06:20mas a violência é a parte do homem,
06:22na maior parte das vezes.
06:23Não são só os homens, os agressores.
06:25E a gente não fala
06:26que os homens precisam também
06:29passar por uma política de educação,
06:31que de alguma forma
06:32a gente está educando mal esses homens.
06:34Que homens que nós estamos fazendo
06:36que acham que têm o direito,
06:38como nós vimos esses dias aí na mídia,
06:40o cara ali se aproximando de uma menina,
06:42um homem de 40 e tantos anos,
06:44se aproximando de uma menina de 14,
06:46se as câmeras não mostrassem,
06:48ainda encontrando alguma coisa,
06:49como que os homens se acham no direito
06:52de se aproximar, de bater, de ofender
06:56e ainda achar que isso está certo.
06:58Então, que tipo de sociedade
07:00a gente vem criando
07:03e o que a gente poderia fazer também
07:05em relação aos homens,
07:07aos agressores?
07:08Então, se a doutora concorda
07:11que não é só um movimento
07:12que a mulher tem que ter,
07:14mas que a sociedade precisa ter também
07:16sobre o tipo de homem
07:18que nós estamos criando,
07:20estamos preparando aí
07:21como os pais dos futuros filhos,
07:23os maridos,
07:24os nossos futuros governantes.
07:26Queria ouvir um pouquinho sobre isso.
07:28Eu concordo completamente.
07:30É triste eu ter que ensinar a vítima
07:33como é que ela vai ter que evitar
07:35ou lutar contra algo
07:37que está sendo feito contra ela.
07:39Isso é realmente triste.
07:41A gente ensina as mulheres.
07:42E pouco se fala,
07:44e eu concordo com a senhora,
07:46pouco se fala a respeito dos homens.
07:48Que, na verdade,
07:49o ideal era o quê?
07:51Eu ensinar,
07:52eu evitar com eles.
07:54Ali que eu vou coibir,
07:55eu vou trazer o quê?
07:56O obstáculo maior.
07:57Que é o fato que
07:59é uma mudança cultural
08:00que a gente tem que fazer.
08:01Não adianta absolutamente nada.
08:03Eu avançar na lei,
08:05sendo que eu vou ter sempre
08:06homens cometendo esses crimes
08:09por achar que a mulher
08:10é propriedade deles,
08:11por achar e menosprezar
08:13a condição da mulher.
08:15A prevenção é realmente
08:17o primeiro passo.
08:18Então, por isso que,
08:19em muitos lugares,
08:20se faz projetos,
08:22que é para o quê?
08:23Que é o que aqui em Brasília
08:24a gente chama
08:25Maria da Penha vai às escolas.
08:27Porque a gente acredita
08:29exclusivamente no quê?
08:30Que não adianta
08:31eu só ensinar as mulheres,
08:32eu tenho que ir na base,
08:34eu tenho que ensinar
08:34desde cedo
08:36a respeitar os direitos
08:37das mulheres,
08:38a respeitar o...
08:41sobre o corpo da mulher,
08:42a respeitá-la
08:44em todos os seus aspectos.
08:45Então,
08:46é triste porque aqui
08:47a gente sempre traz
08:48as informações,
08:49mulheres façam isso,
08:50mulheres não façam aquilo.
08:52Você liga
08:53para determinado número,
08:54você pode contar
08:55com determinadas pessoas.
08:57E aí,
08:57eu concordo completamente
08:59com a senhora.
09:00E por que ela não pode
09:01contar com a sociedade?
09:02Por que ela não pode
09:03contar com um homem?
09:04Para ele olhar
09:05para o seu amigo,
09:06quando ele vê,
09:07ele cometendo
09:08algum tipo de violência
09:10a uma mulher,
09:11ele virar e julgar
09:12esse amigo e falar,
09:13olha,
09:13isso daqui a gente
09:14não pode aceitar.
09:15É uma mudança cultural.
09:17E algo que a gente fala
09:18que é preventivo
09:19realmente é de plantar
09:20sementinha ainda.
09:22Porque não dá
09:22para uma lei
09:23querer mudar
09:24culturamente
09:25seu país,
09:26mas ela começa
09:26a dar recados.
09:27Ela começa a dar recados
09:28que esse tipo de situação
09:30a gente não vai tolerar.
09:32Mas concordo completamente
09:33que o trabalho
09:34tem que ser
09:35para a sociedade
09:35como um todo.
09:36Que é uma forma também
09:38muito eficaz
09:39de evitar e entender
09:41o porquê que ocorrem
09:42esses crimes.
09:43E não só ensinar a mulher
09:45a como só se defender.
09:47É um aspecto
09:48extremamente importante.
09:49Mas o principal
09:50eu também tenho
09:51que cuidar
09:52sobre essa prevenção,
09:53essa instrução,
09:54essa mudança cultural
09:55que é machista
09:57em relação
09:58aos direitos da mulher,
10:00ao corpo da mulher
10:01e que a gente tem
10:02que caminhar todos juntos.
10:04Não é um direito
10:05que só a mulher
10:05vai ter que se defender, não.
10:07Eu preciso que os homens
10:08também abarquem
10:09e também tragam
10:11essa bandeira
10:11algo como sério
10:13e para que seja efetivo
10:15para o nosso direito
10:15como mulher.
10:16e para que a gente tenha
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