00:00E antes do funeral do Papa Francisco, como nós dissemos, o presidente norte-americano Donald Trump e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, se reuniram para discutir um acordo de paz.
00:10Foi uma conversa relativamente rápida, mas a gente vai repercutir isso com o Danilo Porfírio de Castro Vieira, professor que sempre colabora com a gente aqui na Jovem Pan News.
00:21Professor, muito obrigado pela gentileza mais uma vez em nos atender neste sábado à noite. Grande abraço, bem-vindo.
00:30Daniel, obrigado pelo prestígio sempre e estou à sua disposição.
00:34Perfeito. Professor, essa imagem de Donald Trump e Zelensky conversando ali na Basílica de São Pedro ganhou o mundo.
00:42E aí, na sequência, o presidente ucraniano fez uma postagem falando, se referindo a esse encontro como uma boa reunião
00:50e que eles teriam tratado de uma trégua incondicional, essa expressão que ele usou.
00:56Pouco tempo depois, Donald Trump fez uma manifestação naquela sua rede social questionando se Vladimir Putin estaria
01:03verdadeiramente interessado em alcançar a paz e chegou até a falar em posição de novas sanções.
01:10Enfim, parece que nesse rápido encontro, Zelensky conseguiu trazer de volta Donald Trump para o seu lado,
01:18depois daquela rusga pública que nós acompanhamos há alguns meses.
01:22O que é preciso considerar? Para onde o conflito está caminhando, hein, professor?
01:28Bom, nós aqui observamos que, por parte dos americanos, não é?
01:35Há um ânimo de agir no processo, Daniel, de mediação e de conclusão desse conflito.
01:42Havia uma convicção do Trump, do governo Trump, do establishment do governo Trump,
01:49em ter uma solução rápida, entretanto, por parte do próprio governo russo, né?
01:56As propostas de solução ou de cessar fogo para uma posterior pacificação não obtiveram êxito.
02:07E aí nós temos que fazer, talvez, algumas ponderações.
02:13O governo russo conseguiu hoje, e aí a partir de agora nós temos que observar aqui até que as coisas andarão,
02:22o governo russo hoje conseguiu oficialmente declarar a reocupação, a reconquista do território, da região de Kursk.
02:32O que nos parece é que qualquer possibilidade de uma composição, seja de cessar fogo, seja de pacificação,
02:45não terá como objeto a possibilidade de compensações.
02:52Então, primeiramente, o que? Reocupou-se territórios que foram invadidos pelos ucranianos
03:01para que não haja nenhuma possibilidade de busca, o que? De trocas, de compensações territoriais.
03:08Esse é o grande ponto, ao meu ver.
03:10E sem contar que me parece que a paciência de Trump se esgota nessa perspectiva.
03:16Então, nós temos que agora esperar, ao nosso ver, os próximos passos, se realmente Putin sentará a mesa para a negociação,
03:31porque a situação agora, para ele, é privilegiada, e as condições, ao meu ver, partirão do governo russo para que a pacificação ocorra.
03:41Agora, professor, não sei se o senhor chegou a acompanhar, no dia de ontem, uma famosa agência de notícias
03:48divulgou informação sobre documentos que mostram justamente o impasse nas negociações sobre o fim desse conflito no leste europeu.
03:57Uma teria sido redigida pela Europa e a outra proposta pelos Estados Unidos,
04:03mas há divergências substanciais em relação à questão que envolve os territórios, as sanções e também as garantias de segurança.
04:13Quando a gente olha para essas propostas que vêm sendo discutidas, aventadas, articuladas e negociadas,
04:20quais lhe parecem os caminhos mais adequados e prováveis para a gente chegar a um bom termo,
04:27para colocar, se não um ponto final, pelo menos um ponto e vírgula nessa guerra?
04:30Um ponto e vírgula que já, né, Daniel, ocorre desde 2014 com as diversas intervenções naquela região, né?
04:39Mas o que eu quero bater na tecla, Daniel, é que não há condições de se estabelecer uma negociação de paz com o governo russo
04:49condicionando a entrada da Ucrânia, seja na OTAN, seja na União Europeia,
04:59e que haja presença de uma força de afiançamento de soberania ucraniana de origem europeia.
05:07Para os russos, a Ucrânia é uma ficção, é uma ficção.
05:15A origem da mãe Rússia, isso, nós conversamos isso desde 2022,
05:22a mãe Rússia, aos olhos do governo russo, se inicia no território ucraniano,
05:27inicia-se em Kiev.
05:31Então, não há condicionantes para se estabelecer paz,
05:38havendo o quê?
05:39Uma presença europeia naquela região.
05:41Ou mesmo o quê?
05:43Uma entrada dentro da órbita europeia da Ucrânia na perspectiva, seja política, seja militar.
05:51Então, perpassa por isso.
05:53Tanto que o próprio Putin e o próprio Trump levantaram,
05:57se há de se falar de forças de segurança, tem que ser de países neutros.
06:04Levantou-se até a possibilidade de trazer o Brasil para essa discussão,
06:08para trazê-lo como uma força militar de pacificação.
06:13Mas, volto a insistir,
06:16essa questão está se tornando, a cada dia que passa, mais europeia.
06:20E quanto mais europeia ela se torna, maior o impasse com os russos.
06:26Professor Danilo Porfírio de Castro Vieira,
06:29de Relações Internacionais, colaborando com a gente
06:32para discorrer sobre o atual momento dessa guerra no leste europeu.
06:37Professor, peço licença.
06:39Nossa comentarista Priscila Silveira fará a próxima pergunta.
06:42Priscila, com você.
06:44Boa noite, professor Danilo. Satisfação falar com o senhor.
06:46Professor, o senhor acha que esse encontro do Trump,
06:51ameaçando, questionando a Rússia de alguma maneira,
06:56ameaçando também, de alguma forma,
06:59pode influenciar nessas tratativas com relação à Ucrânia e à Rússia?
07:04Eu acredito que, doutora Priscila, nós vamos, nessa reunião,
07:12observar que o Trump quis expor que a Ucrânia não está órfão,
07:19como se, num primeiro momento, tivemos essa impressão,
07:23que, olha, o Trump é incondicionalmente pró-Rússia.
07:28E, claro, que eu insisto sempre, doutora Priscila,
07:32que a Rússia faz parte de um projeto estratégico,
07:38securitário e até econômico dos americanos,
07:42onde envolve questões chinesas e até mesmo o Oriente Médio.
07:48Mas o Trump dá um recado.
07:51Esse projeto não é um projeto incondicional.
07:54Não queiram os russos se aproveitar dessa situação.
07:59Claro que é um recurso retórico.
08:04Por trás dos bastidores, agora, nós veremos a composição.
08:07Mas volto a insistir, doutora Priscila.
08:11Agora, com a reconquista de Kersk,
08:14nós temos que ver quais serão os próximos passos.
08:17Porque agora acabou qualquer possibilidade
08:21de discurso de compensações territoriais.
08:26A Rússia está numa situação de conforto agora.
08:29Agora, professor, já dá pra elencar e projetar
08:33quais foram as principais consequências
08:36desse conflito no leste europeu
08:39para o restante da Europa?
08:40Não faz tanto tempo aqui que nós falávamos
08:43sobre uma mudança de estratégia dos governos
08:47que entenderam que seria muito importante
08:50investir mais nas suas forças armadas.
08:52Enfim, esse talvez seja um aspecto.
08:55Quais outras consequências você gostaria de listar aqui?
08:59Eu gostaria de bater na tecla da OTAN.
09:02Do destino da OTAN.
09:05Por trás de toda essa história,
09:08nós estávamos observando um redimensionamento
09:12da organização, do Tratado do Atlântico Novo.
09:16Que nasceu como resposta a combater uma guerra fria
09:20lá nas épocas da União Soviética.
09:23E que depois do fim da guerra fria,
09:26a OTAN perdeu a sua finalidade, Daniel.
09:30Perdeu.
09:31Perdeu a sua finalidade.
09:33Tanto que nós vamos ver ações da OTAN
09:36ao longo da década de 90 e dos anos 2000,
09:39na Iugoslávia, Guerra de Kosovo,
09:42Guerra do Afeganistão.
09:44E nem sempre foram exitosas.
09:48A OTAN nasce para ser um instrumento de ação americana,
09:53do hegemão americano.
09:55E o que observamos agora?
09:57Fica claro.
09:58Uma ratificação de Trump 2,
10:01daquilo que ele já falava em Trump 1.
10:04A OTAN está a serviço do hegemão americano.
10:08Não dos desejos e anseios europeus.
10:12Era para expandirmos a ação da OTAN
10:16e dos interesses europeus.
10:19E até o governo democrata,
10:20americanos na Ucrânia.
10:22E agora o quê?
10:23Nós deixamos muito claros.
10:25A OTAN tem que ser redimensionada,
10:29não na sua expansão, doutora Priscila,
10:31mas na sua regionalização.
10:35Na verdade, a Europa, como já sabemos,
10:40tem que se preocupar por conta própria
10:42da sua segurança,
10:44não contando mais com essa lógica
10:47do paladino norte-americano.
10:51O encontro de Donald Trump e Volodymyr Zelensky,
10:55a ameaça feita por Trump a Vladimir Putin,
10:59os caminhos possíveis para esse conflito
11:01no leste europeu,
11:02em destaque nessa entrevista
11:04com o professor de Relações Internacionais,
11:06Danilo Porfírio de Castro Vieira,
11:09habitué aqui da programação da Jovem Pan.
11:12Professor, muito obrigado, viu?
11:13Boa noite a você, grande abraço e até breve.
11:15Abraço forte e muito obrigado sempre.
11:20E bom fim de semana.
11:22Muito obrigado.
11:22Até mais, professor, e para você também.
Comentários